O cantor, compositor e multi-instrumentista Lô Borges morreu na noite de domingo (2), aos 73 anos, em Belo Horizonte. Internado desde o dia 17 de outubro após uma intoxicação por medicamentos, ele passou por traqueostomia, hemodiálise e chegou a apresentar melhora parcial, mas teve falência múltipla de órgãos e não resistiu.
Nascido Salomão Borges Filho, em 10 de janeiro de 1952, em BH, Lô Borges é um dos nomes centrais da MPB e um dos fundadores do Clube da Esquina, movimento que revolucionou a música brasileira nos anos 1960 e 1970. Seu nome está ligado a algumas das canções mais bonitas já gravadas no país – e sua obra segue influenciando artistas no Brasil e no mundo.
A morte de Lô Borges
Segundo boletins médicos divulgados pelo Hospital Unimed Contorno, em Belo Horizonte, Lô Borges foi internado em meados de outubro após uma reação alérgica causada por uso de medicamentos.
Durante a internação, o artista:
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precisou de ventilação mecânica
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passou por hemodiálise
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foi submetido a uma traqueostomia para melhorar a ventilação e o conforto
Nos últimos dias, chegou a apresentar relativa estabilidade hemodinâmica, mas o quadro se agravou e evoluiu para falência múltipla de órgãos, levando à morte na noite de domingo, por volta das 20h50.
A família ainda não havia divulgado, até o momento dos primeiros comunicados, detalhes sobre velório e sepultamento.
Quem foi Lô Borges
Antes de ser “lenda”, Lô Borges foi o menino mineiro apaixonado por Beatles, violão e amizade.
Ele ganhou seu primeiro violão por volta dos 9 anos de idade e, ainda criança, conheceu Milton Nascimento, que começou a frequentar a casa da família Borges e a mostrar caminhos musicais ao garoto.
Foi dessa convivência com Bituca, com o irmão Márcio Borges e com a turma musical de Belo Horizonte que nasceu o embrião do Clube da Esquina – um grupo de amigos que se reunia literalmente na esquina, nas ruas de Santa Tereza, para:
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ouvir discos
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tocar violão
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compor em parceria
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misturar rock, samba, jazz, música mineira, psicodelia e MPB
De lá sairiam mais tarde nomes como Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Ronaldo Bastos, entre outros.
Clube da Esquina: a revolução em que Lô Borges foi protagonista
Em 1971, Lô tinha apenas 19 anos quando Milton Nascimento bancou sua presença nas gravações do que se tornaria um dos discos mais importantes da música brasileira: “Clube da Esquina” (1972).
Executivos da gravadora achavam que ele era “novo demais” e não tinha carreira ainda. Milton bateu o pé: ou Lô entrava, ou ele não gravaria. O resultado justificou o risco.
No álbum duplo “Clube da Esquina”, assinado por Milton Nascimento e Lô Borges, o então “novato” é coautor ou intérprete de clássicos como:
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“O Trem Azul”
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“Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”
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“Paisagem da Janela”
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“Tudo o que Você Podia Ser” (com Márcio Borges)
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“Trem de Doido”
Décadas depois, o disco seria eleito por críticos e publicações especializadas como um dos melhores álbuns brasileiros de todos os tempos, frequentemente figurando em listas internacionais.
A parceria Lô Borges & Milton Nascimento também assinou a icônica “Para Lennon e McCartney” (com Márcio Borges e Fernando Brant), símbolo da geração mineira dialogando com o mundo e homenageando seus ídolos.
“Disco do Tênis”: o álbum improvisado que virou cult mundial
Depois do impacto de “Clube da Esquina”, a gravadora chamou Lô Borges para um disco solo. Havia só um “pequeno detalhe”: ele não tinha nenhuma música pronta. Mesmo assim, topou – e mentiu que tinha o repertório armado.
Daí nasceu o lendário “Lô Borges” (1972), conhecido como “Disco do Tênis”, por causa da capa com um tênis surrado. A história por trás do álbum é quase tão famosa quanto as músicas:
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Lô e o irmão Márcio montaram uma espécie de mutirão criativo, compondo dia e noite durante semanas
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amigos do Clube da Esquina entraram no estúdio praticamente sem ensaio, criando arranjos e ideias na intuição, na hora
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o clima era de experimentação total, com influências de Beatles, Jimi Hendrix, rock progressivo, psicodelia e MPB
À época, o próprio Lô achou o resultado “caótico” e chegou a rejeitar o disco durante anos, sentindo que ele carregava a ansiedade e a opressão da época da ditadura.
A gravadora também não apostou muito comercialmente.
Mas o tempo fez justiça:
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o Disco do Tênis virou objeto de culto internacional, sendo redescoberto por colecionadores de vinil, DJs e bandas estrangeiras
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em 2018, os Arctic Monkeys citaram o álbum como influência direta
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Alex Turner chegou a dizer que compôs músicas de “Tranquility Base Hotel & Casino” com “Aos Barões” na cabeça
Hoje, é quase impossível falar de lo borges sem mencionar o peso histórico e artístico desse disco, que se tornou símbolo de liberdade criativa e risco estético na MPB.
Carreira solo, retornos e parcerias
Após o período mais intenso de exposição, Lô Borges chegou a se afastar do “showbiz”.
Ele mesmo contou que, depois do Disco do Tênis, estava exausto, magro, saturado da pressão da indústria e decidiu viver uma vida mais simples, “de um jovem de 19 anos”, viajando, pegando carona, experimentando outro ritmo de existência.
Mas a música nunca saiu de cena. Ele voltou a gravar e, ao longo de mais de cinco décadas de carreira, lançou cerca de 16 álbuns, entre trabalhos solo e parcerias, como:
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“A Via Láctea” (1979) – com faixas marcantes como “Vento de Maio” e “Nau sem Rumo”
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“Clube da Esquina 2” (1978) – novo mergulho coletivo nesse universo mineiro único
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colaborações com Skank, como “Dois Rios”
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participações ao lado de Elis Regina, Tom Jobim, 14 Bis e vários outros grandes nomes
De 2019 a 2025, Lô viveu uma fase particularmente fértil, lançando sete álbuns em parceria com:
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Nelson Angelo
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Makely Ka
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Márcio Borges
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Patricia Maês
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César Maurício
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Manuela Costa
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Zeca Baleiro
Em 2022, comemorando 50 anos de carreira e 70 anos de vida, gravou um álbum ao vivo com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, unindo sua obra à linguagem sinfônica.
Seu último trabalho, “Tobogã” (2024), nasceu da parceria com a poeta Manuela Costa, com 12 faixas inéditas e uma homenagem especial ao pai, Salomão Borges, falecido em 2014.
Como Lô Borges fazia música: o fascínio pelo “desconhecido”
Em entrevistas recentes, Lô Borges dizia que a composição era seu maior vício bom. Ele se definia como um “aficionado por criar canções inéditas”, comparando o ato de compor a coisas tão cotidianas quanto tomar banho ou beber água.
Uma das imagens que ele mais gostava era a da “faca amolada”:
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se ficasse muito tempo sem compor, sentia que a “faca” perdia o fio
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cada disco novo era um portal aberto a partir de um instrumento diferente: ora o violão, ora a guitarra, ora o órgão
Essa curiosidade permanente fez com que lo borges mantivesse a obra sempre em movimento, sem se limitar a um único formato. Mesmo quando revia canções antigas em concertos especiais, ele fazia isso com a leveza de quem ainda estava descobrindo algo novo.
Impacto e legado de Lô Borges
Falar de Lô Borges é falar de:
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liberdade de criação
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mistura de referências brasileiras e estrangeiras
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coragem de experimentar sem perder a melodia e a emoção
Seu legado inclui:
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uma coleção de clássicos da MPB:
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“O Trem Azul”
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“Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”
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“Paisagem da Janela”
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“Tudo o que Você Podia Ser”
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“Para Lennon e McCartney”
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“Equatorial”
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“Vento de Maio”
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a coautoria de um dos álbuns mais importantes da história da música brasileira, “Clube da Esquina”
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um dos discos solo mais cultuados e influentes do Brasil, o “Disco do Tênis”
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a influência direta sobre gerações, de Flávio Venturini e 14 Bis até bandas contemporâneas como Terno Rei, artistas do indie rock internacional e uma infinidade de músicos anônimos que aprenderam violão com suas harmonias
Mais do que tudo, Lô Borges deixa a imagem de um artista que não se deixou moldar pela indústria, preferindo que a música “sobrevivesse dentro dele”, como ele mesmo disse certa vez, do que viver apenas para a lógica do mercado.
Repercussão da morte de Lô Borges
Desde a confirmação da morte, artistas, jornalistas, fãs e veículos de comunicação têm publicado homenagens a Lô Borges nas redes sociais.
Os tributos destacam principalmente:
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a delicadeza das melodias
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a força poética das letras em parceria com Márcio Borges e outros letristas
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o papel central de Lô na identidade sonora do Brasil dos anos 70 em diante
Para muita gente, a morte de lo borges é comparável à despedida de outros gigantes da MPB, pois encerra a trajetória física de alguém que ajudou a redesenhar o mapa emocional da música brasileira.
Mas, como sempre acontece com os grandes, a obra fica e segue ganhando novos ouvintes, novos arranjos e novos sentidos.
Quem foi Lô Borges?
Lô Borges (Salomão Borges Filho) foi um cantor, compositor e multi-instrumentista mineiro nascido em Belo Horizonte, em 10 de janeiro de 1952.
É considerado um dos fundadores do movimento Clube da Esquina, ao lado de Milton Nascimento, e autor de clássicos da MPB como “O Trem Azul”, “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela” e “Tudo o que Você Podia Ser”.
Com uma carreira de mais de 50 anos, lançou 16 álbuns e influenciou artistas no Brasil e no exterior.
De que Lô Borges morreu?
O artista faleceu em 2 de novembro de 2025, aos 73 anos, em Belo Horizonte.
Segundo boletim médico do Hospital Unimed Contorno, a causa foi falência múltipla de órgãos, decorrente de uma intoxicação por medicamentos.
Lô estava internado desde 17 de outubro, passou por hemodiálise e traqueostomia, mas não resistiu às complicações.
O que foi o “Clube da Esquina”?
O Clube da Esquina foi um movimento musical mineiro criado no final dos anos 1960 e consolidado nos anos 1970.
Misturava rock, jazz, bossa nova, música latino-americana, psicodelia e canções populares brasileiras, criando um som moderno e emocional.
O movimento nasceu literalmente nas esquinas de Belo Horizonte, onde jovens músicos como Lô Borges, Milton Nascimento, Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso e Ronaldo Bastos se reuniam para compor e tocar.
O álbum “Clube da Esquina” (1972), de Milton Nascimento e Lô Borges, é considerado uma das obras-primas da música mundial.
Por que o “Disco do Tênis” é tão famoso?
O álbum “Lô Borges” (1972) ficou conhecido como o “Disco do Tênis” por causa da capa com um tênis surrado — símbolo de juventude e liberdade.
Gravado às pressas e praticamente de improviso, o disco foi rejeitado pela gravadora na época, mas com o tempo se tornou cultuado no Brasil e no exterior.
Hoje é visto como um marco da experimentação musical e da fusão entre o psicodélico e o popular.
Bandas internacionais como Arctic Monkeys e Tame Impala já citaram o álbum como influência direta.
O que Lô Borges representou para a música brasileira?
Lô Borges foi símbolo da liberdade criativa e da autenticidade artística.
Enquanto a ditadura militar tentava censurar e controlar a produção cultural, ele e sua geração criaram uma música profunda, inventiva e emocional, que falava de amor, sonho, fé e liberdade.
Sua obra uniu gerações, dos anos 70 ao indie atual, e mostrou que a MPB podia ser vanguarda sem perder a alma popular.
