Investigações da Polícia Federal trouxeram à tona a destinação de uma emenda de Flávio Bolsonaro para miliciano com envolvimento direto no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. O senador e atual candidato à Presidência da República (PL-RJ) enviou quase R$ 200 mil em recursos públicos para um projeto esportivo a pedido de Robson Calixto, o “Peixe”.
Peixe é ex-policial militar e foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 9 anos de prisão por atuar como elo entre os executores do crime e os mandantes, os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão. As negociações do dinheiro público ocorreram em 2023, intermediadas por Maria de Fátima Bezerra Castro, secretária parlamentar do gabinete do senador.
Prints do WhatsApp detalham a negociação da emenda de Flávio Bolsonaro para miliciano
As mensagens foram extraídas do celular de Peixe, apreendido pela PF em 2024. Os laudos mostram Maria de Fátima atuando como “interlocutora direta” do criminoso no Congresso Nacional. O g1 obteve acesso aos prints que documentam o passo a passo da liberação da emenda de Flávio Bolsonaro para miliciano.
Em 24 de outubro de 2023, Peixe inicia a cobrança:
Peixe: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar.”
Maria de Fátima: “Manda a solicitação meu amigo. Um e-mail ou um ofício.”
Após o envio de um arquivo em anexo, a assessora questiona quando ele iria a Brasília. Peixe confirma a viagem para novembro e reforça o pedido financeiro. Dois dias depois, em 26 de outubro, a assessora do senador orienta o miliciano a usar a influência do deputado Chiquinho Brazão junto a Flávio:
Maria de Fátima: “O deputado brazão, vc ainda tá com ele?”
Peixe: “Positivo.”
Maria de Fátima: “Temos um evento. Vc vai tbm e já reforça o pedido com o senador. Leva o deputado.”
O evento em questão era uma entrega de coletes balísticos no Rio de Janeiro. No início de novembro, Peixe volta a cobrar: “Amiga não esquece do IFOP não, vê se o Senador consegue nos agraciar, para não terminar o nosso projeto”. A assessora responde: “Pode deixar”. Dias depois, o repasse de quase R$ 200 mil foi oficializado.
Fraudes apontadas pelo TCU e troca de favores no Carnaval
Além da gravidade do elo político, um relatório técnico de 2025 do Tribunal de Contas da União (TCU) apontou desvio dos recursos da emenda de Flávio Bolsonaro para miliciano. O dinheiro foi enviado ao IFOP para um projeto de treinamento esportivo, mas a entidade contratou a empresa Romulo Alves – Sociedade Individual de Advocacia. O TCU destacou que serviços advocatícios não guardam qualquer relação com atividades esportivas e revelou que o dono do escritório contratado era o próprio presidente do IFOP.
O inquérito sigiloso da PF também revelou que, meses após o pagamento da emenda de Flávio Bolsonaro para miliciano, a assessora do senador passou a cobrar favores pessoais de Peixe. Em janeiro de 2024, Maria de Fátima enviou a seguinte mensagem:
Maria de Fátima: “Já estou te perturbando rsrsrs será que consegue 4 ingressos pro desfile das campeãs no camarote Arpoador?”
A PF interceptou mensagens subsequentes em que o miliciano aciona terceiros para conseguir os ingressos VIP na Sapucaí, caracterizando o atendimento a uma “solicitação de vantagem indevida” feita pela funcionária do Senado.
O posicionamento do senador
Em nota oficial, a assessoria de Flávio Bolsonaro negou irregularidades e transferiu a responsabilidade pelo uso do dinheiro à entidade que o recebeu:
“A emenda foi destinada dentro da legislação vigente e dos critérios técnicos do Ministério do Esporte. A entidade executora apresentou notas fiscais dos materiais adquiridos e devolveu os valores não utilizados. A responsabilidade pela execução dos recursos é da entidade beneficiária, não do parlamentar. Eventuais irregularidades devem ser apuradas pelos órgãos de controle, como determina a lei”.
Quem é Robson Calixto, o Peixe?
Robson Calixto é um ex-policial militar reformado e miliciano condenado pelo STF a 9 anos de prisão por atuar como intermediário dos irmãos Brazão no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.
O que o TCU descobriu sobre o uso do dinheiro da emenda?
O TCU identificou que o instituto que recebeu os quase R$ 200 mil contratou um escritório de advocacia para coordenar um "projeto esportivo". O dono do escritório era o próprio presidente da entidade contratante.
Qual foi a relação da assessora de Flávio Bolsonaro com o miliciano?
Maria de Fátima Bezerra Castro orientou o miliciano sobre como pedir os recursos, sugeriu que ele usasse a influência de Chiquinho Brazão junto ao senador e, posteriormente, pediu ao criminoso quatro ingressos VIP para o Carnaval na Sapucaí.
