Megaoperação no Alemão e na Penha deixa 64 mortos no Rio de Janeiro

Raniely Carvalho
9 min Read

A megaoperação no Alemão e na Penha, a Operação Contenção, deflagrada nesta terça (28.out.2025), deixou 64 mortos (4 policiais) e 81 presos, com barricadas e vias fechadas em represália, sendo o maior número de óbitos já registrado em uma ação policial no RJ.

O quadro geral da megaoperação no Alemão

  • Saldo até o meio da tarde: 64 mortos (60 suspeitos e 4 agentes de segurança) e 81 presos; 75 fuzis e outras armas apreendidas. Trata-se, segundo o governo do estado, da operação mais letal da história do RJ.

  • Efetivo e objetivo: cerca de 2.500 policiais civis e militares mobilizados para cumprir 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão contra lideranças do Comando Vermelho (CV), após um ano de investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes.

  • Thiago do Nascimento Mendes (Belão do Quitungo) e Nicolas Fernandes Soares, apontado como operador financeiro ligado a Edgar “Doca/Urso”, liderança do CV na Penha/Jacarepaguá.

Como a operação começou e escalou

No fim da madrugada, as equipes entraram na Penha e no Alemão para dar cumprimento aos mandados. Houve reação imediata a tiros, com barricadas incendiadas. A Polícia Civil relatou granadas lançadas por drones contra as forças de segurança, uma tática que vem se consolidando nas favelas do Rio e eleva o risco a moradores e policiais. Vídeos registraram quase 200 disparos em um minuto em meio à fumaça das barricadas.

Mais tarde, represálias coordenadas bloquearam vias estratégicas por toda a cidade (Avenida Brasil, Linha Amarela, Linha Vermelha, Grajaú-Jacarepaguá, Méier e outros pontos), usando ônibus e veículos como barreiras. O COR elevou o estágio operacional para nível 2 e a PM colocou todo o efetivo nas ruas, suspendendo rotinas administrativas.

Megaoperação no Alemão deixa 64 mortos e causa pânico no Rio de Janeiro
Traficantes agora começam a bloquear vias públicas – Foto: Reprodução/TV Globo

O que diz a Segurança Pública do RJ

O secretário Victor Santos afirmou que a megaoperação no Alemão e na Penha foi planejada com antecedência, que não contou com apoio federal e que o estado enfrenta “9 milhões de m² de desordem urbana” apenas na Penha e no Alemão (becos intransitáveis, construções irregulares e domínio territorial do crime).

Ele defendeu integração entre estado, União e município, disse que o plano de retomada vai até 2031 e que operações pontuais não bastam, pedindo endurecimento da legislação para manter presos criminosos armados com “armas de guerra”.

Por que esta operação já entrou para a história

O número de mortos da megaoperação no Alemão e na Penha supera o das ações no Jacarezinho (2021, 28 mortos) e Vila Cruzeiro (2022, 24 mortos) que, até então, eram os marcos mais letais. Ou seja: sozinha, a Operação Contenção ultrapassou o soma desses episódios (62). O recorte histórico ajuda a dimensionar a gravidade do que o Rio viveu hoje.

Com tiroteios prolongados, bombas lançadas por drones e barricadas incendiadas, o dia virou um mosaico de cancelamentos e desvios:

  • Escolas e unidades de saúde fecharam portas ou reduziram atendimento nas áreas mais afetadas;

  • BRT e dezenas de linhas de ônibus tiveram itinerários desviados;

  • Moradores ficaram ilhados em partes da Serra da Misericórdia e adjacências;

  • Comerciantes relataram saques e interdições espontâneas por medo de circulação de faccionados armados.

O que muda do ponto de vista investigativo

Além das prisões, a operação que resultou na megaoperação no Alemão e na Penha mira cadeias de comando e finanças do CV, em especial a logística de armas e drogas e o escoamento pela Penha (ponto histórico de saída para vias expressas).

A denúncia do Gaeco/MPRJ descreve um núcleo de liderança (como Doca/Urso, Pedro Bala, Gadernal, Grandão) que delibera escalas, regula “bocas” e ordena execuções; há ainda quadros de gerência (contabilidade/abastecimento) e o contingente armado (“soldados”).

O alcance nacional do problema

Segundo o secretário, o CV está presente em 25 estados, perdendo capilaridade apenas para o PCC. Daí os alvos de fora do RJ, pelo menos 30 do Pará, além de registros de integrantes da Bahia e do Espírito Santo mortos em confronto hoje. O recado do governo fluminense é que o fenômeno é nacional e que o apoio da União é indispensável para ações perenes.

Por dentro das táticas vistas hoje

  • Drones com explosivos: adotados por grupos do CV, aumentam o raio de ameaça e tornam mais difícil a progressão de tropas por becos e telhados. Não houve registro de feridos por granadas lançadas por drone hoje, segundo a Polícia Civil, mas a escalada tecnológica é evidente.

  • Fuga em fila indiana pela mata (Serra da Misericórdia): repetindo imagens de 2010, grupos abandonaram posições internas para tentar romper o cerco pela área verde, uma resposta clássica quando blindados e helicópteros se aproximam.

  • Bloqueio urbano com ônibus/veículos: estratégia para fragmentar a cidade, atrasar reforços e semear pânico (fumaça, tiros e incêndios), forçando o redirecionamento do efetivo policial.

O que esperar nos próximos dias

  • Operação ainda em andamento: novas prisões, remoções e perícias devem alterar o balanço final; autoridades falam em monitoramento contínuo de suspeitos que romperam cercos pela mata.

  • Audiências de custódia dos presos e análise do material apreendido (armas, celulares, mídias) tendem a abrir novas linhas investigativas contra finanças e logística do CV.

  • Debate federativo: com o secretário cobrando coordenação entre esferas, a tendência é que se intensifique a discussão por operações integradas (segurança + políticas urbanas) nas áreas sob domínio do crime.

Relembre: os marcos de letalidade no RJ (e por que 28/10/2025 é um ponto fora da curva)

  • Jacarezinho (maio/2021): 28 mortos em operação policial — símbolo recente da letalidade de ações em favelas e alvo de ampla contestação de entidades de direitos humanos.

  • Vila Cruzeiro/Penha (maio/2022): 24 mortos; consolidou o Complexo da Penha como eixo estratégico do CV e evidenciou a dificuldade histórica do estado em manter presença após incursões.

A Operação Contenção (28/10/2025) supera ambas, com 64 mortos, e recoloca no centro o dilema do RJ, que é como reduzir o poder armado de facções sem reproduzir ciclos de letalidade, sem presença estatal continuada e sem um pacto federativo para reurbanização, inteligência e controle de armas.

Linha do tempo do dia 28.out.2025

Madrugada — Início das incursões nos complexos, com a megaoperação no Alemão e na Penha; confronto imediato, barricadas e incêndios. Drones com explosivos são usados contra a CORE.
Manhã — Prisões de alvos (incluindo operador financeiro da cúpula) e apreensões; balanço parcial já aponta dezenas de mortos.
Início da tardeRepresálias difusas: bloqueios na Linha Amarela, Linha Vermelha, Av. Brasil, Méier, Grajaú-Jacarepaguá e outras vias; COR eleva estágio; BRT e ônibus desviam itinerários; escolas e unidades de saúde fecham.
Tarde — Governo anuncia que a operação segue ativa; confirma 64 mortos e 81 presos; secretário pede apoio federal.

Análise: por que “apagar incêndios” não basta

Especialmente na Penha e no Alemão, geografia (becos, grotas, rotas de fuga pela mata), densidade urbana e tecnologia do crime (rádios, aeronaves/remotos, logística) potencializam letalidade e custos sociais.

A insistência em operações eventuais, sem ocupação continuada, serviços públicos e investigação financeira de alto nível, tende a repetir ciclos de “entra-sai” e represálias, que é o que estamos vendo hoje na megaoperação no Alemão e na Penha. As próprias autoridades estaduais já reconhecem que só o braço policial não é suficiente e falam em plano até 2031.

Por que esta operação é chamada de “a mais letal” do RJ?

Porque o total de mortos (64) supera o das ações de Jacarezinho (28) e Vila Cruzeiro (24), até então as maiores marcas desde 1994.

Quem planejou e executou a ação? Houve apoio federal?

A operação foi planejada pelo governo do RJ (Polícia Civil/PM) após um ano de investigação; segundo o secretário, não houve apoio federal nesta etapa.

O que motivou o “dia de guerra” nas ruas (ônibus queimados, vias fechadas)?

Foram represálias coordenadas por grupos ligados ao CV para dispersar efetivos, causar pânico e dificultar deslocamentos das forças de segurança.

Drones com bombas foram realmente usados? Isso é comum?

Sim. A Polícia Civil divulgou imagens de granadas lançadas por drones contra a CORE. O uso ainda não é onipresente, mas cresce como tática de narcoterrorismo no RJ.

Quem são os presos de maior relevância?

Entre outros, “Belão do Quitungo” (liderança local) e Nicolas Fernandes Soares, operador financeiro associado a Doca/Urso, apontado como líder do CV na Penha e em áreas da Zona Oeste.

O que acontece agora com os detidos?

Eles passarão por audiência de custódia. As apreensões (armas, celulares, mídias) seguem para perícia, podendo abrir novas linhas contra logística e finanças do CV.

A operação resolve o problema na Penha/Alemão?

Por si só, não. Autoridades admitem necessidade de ocupação continuada, inteligência financeira, controle de armas e políticas urbanas integradas, com coordenação federativa.

Por que o CV é tão difícil de desarticular?

Porque opera em rede, com lideranças moduláveis, base logística em territórios de alta densidade e rotas de escoamento para armas/drogas; além disso, tem capilaridade nacional (25 estados), o que desloca quadros e recompõe perdas rapidamente.

Como a população deve agir durante ações desse porte?

Seguir alertas oficiais, evitar deslocamentos nas áreas afetadas, não se aproximar de pontos de confronto, suspender atividades externas quando recomendado e reportar movimentos suspeitos por canais oficiais. (Dicas derivadas de orientações públicas em operações anteriores.)

Onde acompanho mudanças no trânsito e serviços?

Nos canais do COR Rio/Prefeitura, PMERJ/PCERJ e concessionárias de mobilidade (BRT/consórcios de ônibus), que atualizam bloqueios e rotas em tempo real. (Boas práticas gerais; ver comunicações oficiais do dia.)

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Raniely Carvalho é jornalista, fundadora e editora-chefe do Portal Raniely Carvalho. Natural de Boa Vista (RR), é formada pela Faculdade Atual da Amazônia e pela Estácio de Roraima. Com registro profissional (DRT 421/RR), atua há anos como repórter em emissoras locais e produz conteúdo focado em jornalismo regional, segurança pública e temas de interesse social.
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