A reunião de Trump e Lula na Malásia abriu oficialmente uma rodada de negociações bilaterais para tentar desmontar o tarifaço de 50% aplicado por Washington a produtos brasileiros. Foi uma conversa de quase uma hora, cordial, com troca de elogios públicos.
Trump chamou Lula de “muito vigoroso e impressionante” e lhe deu parabéns pelos 80 anos, mas sem promessa imediata de acordo. Lula, por sua vez, disse ter sido “surpreendentemente boa” a reunião e declarou esperar concluir um entendimento “em semanas”.
Após a reunião de Lula e Trump na Malásia, nesta segunda (27), equipes técnicas iniciaram reuniões de trabalho e uma comitiva brasileira de alto nível (Geraldo Alckmin, Mauro Vieira e Fernando Haddad) seguirá a Washington para desenhar um cronograma e tratar de setores afetados, inclusive minerais críticos e terras raras.
Paralelamente, o Itamaraty pediu a suspensão das tarifas durante a negociação e colocou na mesa outro tema sensível: a revogação de sanções (Lei Magnitsky) impostas por Trump a autoridades brasileiras, incluindo ministros do STF.
O que esteve na mesa de negociação
1) Tarifa de 50% contra o Brasil
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Foi o ponto central da Reunião de Lula e Trump na Malásia. O presidente norte-americano não garantiu reduzir ou suspender imediatamente, mas aceitou negociar com rapidez.
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Lula argumentou que os EUA têm superávit no comércio com o Brasil e, portanto, a justificativa econômica da sobretaxa não se aplicaria ao caso brasileiro.
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O Brasil pediu a suspensão provisória do tarifaço durante as tratativas.
2) Sanções a autoridades brasileiras (Lei Magnitsky)
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O Brasil apresentou um pedido para retirada das sanções a ministros do STF e ao ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
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Avaliação de bastidores: a reversão não é simples — pode virar moeda de troca nas negociações comerciais.
3) Agenda geopolítica: Venezuela
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Lula se ofereceu para intermediar canais de diálogo entre EUA e Venezuela, retomando a tradição brasileira de mediação regional.
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Trump agradeceu e sinalizou abertura para interlocução futura, sem detalhar formato ou prazos.
4) China, “nova Guerra Fria” e alinhamentos
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Lula defendeu relações comerciais plurais, rejeitou a lógica de “nova Guerra Fria” e enfatizou que o Brasil não escolherá lados (manterá boas relações com EUA e China).
5) Visitas recíprocas
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Houve entendimento para visitas oficiais: Trump ao Brasil e Lula aos EUA, em datas a definir.
Clima político e mensagens públicas
Trump, em voo para o Japão, repetiu que a conversa foi “muito boa”, mas reforçou o tom condicional: “Vamos ver o que acontece”. Elogiou Lula, desejou feliz aniversário, e citou as tarifas de 50% como realidade do momento.
Lula afirmou que, “dependendo dele e de Trump, vai ter acordo”, e que ligará diretamente para o norte-americano “sempre que necessário” para destravar nós políticos. A leitura do Planalto foi de avanço simbólico e prático: “Agora não tem mais intermediário”.
No entorno político, a reunião foi lida como “tremenda vitória” de Lula (nas palavras do cientista político Hussein Kalout), por reabrir pontes com Washington e esvaziar a narrativa de que o governo brasileiro estaria isolado. Ao mesmo tempo, analistas ponderam: desfazer o tarifaço não é trivial; exigirá concessões mútuas, e pode sair por etapas (alguns setores antes de outros).

Próximos passos (o que esperar nas “próximas semanas”)
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Missão a Washington: chanceler Mauro Vieira, vice Geraldo Alckmin e ministro Fernando Haddad alinham cronograma, método e escopo das conversas.
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Mapa setorial: definição de cadeias mais afetadas pelas tarifas (agro, indústria de transformação, insumos, etc.).
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Discussão de “pacote”: a parte comercial (tarifas) vai interagir com outros interesses americanos (por exemplo, acesso a terras raras, etanol de milho, regulação de big techs).
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Sinal político: possibilidade de suspensão parcial/temporária de tarifas durante a negociação, sem garantia no curto prazo.
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Ritmo de cúpula: ligações diretas Lula–Trump para desatar impasses e produzir “gestos” (como visitas oficiais ou anúncios de boas-vindas).
Reunião de Lula e Trump na Malásia: pano de fundo econômico
O tarifaço de 50% tem efeitos inflacionários internos nos EUA e desorganiza cadeias binacionais. Do lado brasileiro, setores com maior valor agregado e alto conteúdo importado sentem o impacto de custos e margem. A CNI já considerou positivo o simples fato de voltar à mesa com chance de uma solução “equilibrada”.
Para Washington, além da política doméstica (pressões setoriais como a do gado), há a disputa estratégica com a China. Reaproximar-se do Brasil reduz dependências de Pequim (inclusive em minerais críticos) e ancora a presença americana na América do Sul. Do lado brasileiro, diversificar parceiros e baixar o custo de acesso ao mercado dos EUA potencializa investimento e tecnologia.
Política, justiça e ruídos paralelos
Temas espinhosos rondaram a sala durante a reunião de Lula e Trump na Malásia. Bolsonaro e a Lei Magnitsky entraram no radar, Lula afirmou que o julgamento do ex-presidente foi “muito sério, com provas contundentes” e tratou as sanções como injustas. Ao mesmo tempo, Trump teria demonstrado empatia ao perguntar sobre o período de prisão de Lula, comparando com seus próprios embates judiciais.
Tradução diplomática: ambos se humanizaram e preservaram espaço para negócios. Esse degelo político não revoga automaticamente sanções e tarifas, mas facilita saídas negociadas.
O que pode acontecer (cenários realistas)
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Cenário 1 – Alívio gradual: os EUA reduzem a sobretaxa por setor (ou suspendem temporariamente durante as tratativas) e testam confiança. O Brasil cede em alguns temas regulatórios/mercantis (p.ex., etanol, tech) e oferece instrumentos em minerais críticos com salvaguardas ambientais.
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Cenário 2 – Empate operacional: conversas avançam, mas sem medidas concretas de curto prazo; política doméstica dos dois países atrasa o cronograma.
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Cenário 3 – Ruptura controlada: ruídos (eleitorais, judiciais, regionais) emperram; extrai-se apenas um roteiro de trabalho para 2026, com poucos efeitos imediatos.
Hoje, o Cenário 1 é o objetivo declarado por ambos e dependerá de como economia e política se entrelaçam nas próximas semanas.
Por que a reunião de Lula e Trump na Malásia foi extremamente importante
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Reabre o canal presidencial direto EUA–Brasil, reduzindo ruídos.
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Reposiciona o Brasil como parceiro estratégico, inclusive para a transição energética e cadeias tecnológicas (terras raras).
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Alivia pressões sobre setores exportadores brasileiros e ancora expectativas de investimento.
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Reforça o papel do país como mediador regional (Venezuela) e como ator autônomo entre EUA e China.
Linha do tempo
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Julho/25 – Trump impõe 50% de tarifa a produtos brasileiros.
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Set/25 – Lula e Trump têm contato breve na ONU (NY).
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Out/25 (início) – Ligação entre os presidentes; times iniciam preparação para reunião.
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26/10/25 – Reunião bilateral em Kuala Lumpur (ASEAN).
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27/10/25 – Arrancam reuniões técnicas; Brasil agenda missão a Washington.
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“Próximas semanas” – Meta política de fechar desenho inicial do acordo.
Pontos-chave, em uma frase
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Trump: “Foi muito boa. Vamos ver o que acontece.”
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Lula: “Se depender do Trump e de mim, vai ter acordo. Vou ligar direto quando precisar.”
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Itamaraty: foco em suspender tarifas, apressar calendário e discutir setores (incluindo minerais críticos).
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Aval dos analistas na reunião de Lula e Trump na Malásia: vitória política de Lula; resultado econômico ainda depende de concessões mútuas.
Trump garantiu o fim das tarifas?
Não. Ele elogiou a reunião e aceitou negociar, mas não prometeu reduzir ou suspender as tarifas de imediato.
Quando sai um acordo?
O objetivo político é fechar “em semanas”, mas prazos dependem do avanço técnico e de trocas que cada lado aceitar.
As sanções a ministros do STF caem agora?
Não há sinal de reversão imediata. O tema entrou na mesa e pode ser parte de um pacote mais amplo.
O que o Brasil oferece em troca?
De regulação de big techs a acordos sobre etanol e parcerias em minerais críticos são cartas sob análise. Detalhes não foram fechados.
E a Venezuela?
Lula se ofereceu como interlocutor. Trump agradeceu. Formato e prazos ainda não foram definidos.
Qual o impacto político interno?
Para analistas, a reunião rende dividendos a Lula ao reduzir tensões com Washington e dar perspectiva de alívio ao tarifaço; a execução dirá o tamanho desse ganho.
Haverá visitas oficiais?
Sim, houve acordo de princípio para visitas Trump ao Brasil e Lula aos EUA. Datas serão combinadas.
O que muda amanhã para exportadores?
Por ora, nada. O sinal é positivo, mas medidas concretas dependem das próximas rodadas.
