Um golpe internacional milionário envolvendo a venda de pó de brita no lugar de cassiterita (o “ouro negro”) revelou uma teia criminosa que lucrava com a devastação indígena. A Polícia Federal descobriu uma audaciosa fraude com minério da Terra Yanomami que lavou dezenas de milhões de reais oriundos do garimpo ilegal e chegou a movimentar as contas bancárias do cantor Alexandre Pires e de seu ex-empresário. O esquema foi desarticulado nesta quarta-feira (23) durante a Operação Disco de Ouro II.
A investigação começou após uma empresa suíça de comércio de metais pagar cerca de US$ 48 milhões (R$ 247 milhões) antecipados por uma carga de cassiterita, mas receber contêineres cheios de pó de brita e areia. A denúncia feita pela companhia europeia à PF escancarou como um grupo de empresários “esquentava” o material extraído da Terra Indígena e ocultava o dinheiro em contas de “laranjas” e celebridades.
Como operava a fraude com minério da Terra Yanomami e a lavagem de dinheiro
O esquema era liderado, segundo a PF, por Diego Possebon e o empresário Christian Costa dos Santos. Eles utilizavam uma licença de mineração em Itaituba (PA) para dar aparência legal ao “ouro negro” roubado de Roraima. No entanto, após a PF apreender mais de 100 toneladas de cassiterita do grupo em 2022, os criminosos ficaram sem o produto para entregar aos suíços.
Para garantir o dinheiro, orquestraram o ápice da fraude com minério da Terra Yanomami: falsificaram laudos químicos nos armazéns em Manaus (AM) e enviaram pedra de construção civil (brita) como se fosse minério de alto valor.
O dinheiro internacional retornava ao Brasil através de operações de “dólar-cabo”, coordenadas por Diego em um grupo de WhatsApp chamado “GRUPO CONTA USD”. Segundo a corporação, o cantor Alexandre Pires e sua produtora musical receberam cerca de R$ 31 milhões desse esquema. Os investigadores apontam que as contas do artista e de seu antigo empresário, Matheus Possebon, serviram para fracionar e dissimular o capital ilícito proveniente da exploração territorial.
A 4ª Vara da Justiça Federal em Boa Vista expediu 12 mandados de busca e apreensão e 17 ordens de sequestro de bens. Os envolvidos no núcleo que sustentava a fraude com minério da Terra Yanomami responderão por lavagem de dinheiro, organização criminosa, operação irregular de instituição financeira e falsidade ideológica.
A defesa do cantor Alexandre Pires afirmou, em nota, que ele foi “tomado de surpresa”, negou qualquer envolvimento com o garimpo em área indígena e reforçou sua “longa e impecável carreira artística”, afirmando que jamais cometeu qualquer ilícito e que confia na Justiça para esclarecer o caso.
Como a Polícia Federal descobriu o esquema milionário?
A PF iniciou a investigação após uma empresa suíça apresentar uma notícia-crime denunciando que pagou US$ 48 milhões por cassiterita, mas recebeu contêineres carregados de pó de brita e areia.
Qual é a suspeita contra o cantor Alexandre Pires?
A Polícia Federal aponta que o cantor e sua produtora musical teriam recebido cerca de R$ 31 milhões de empresas ligadas ao garimpo. Eles são suspeitos de ceder as contas para fracionar e ocultar o dinheiro sujo. A defesa do artista nega qualquer irregularidade.
De onde vinha o minério verdadeiro comercializado pela quadrilha?
Apesar de usarem uma licença de mineração no estado do Pará para "esquentar" os laudos, a PF constatou que a cassiterita (usada para fabricar telas de celular e vidros) era extraída ilegalmente de garimpos dentro da Terra Indígena Yanomami, em Roraima.
